quinta-feira, 29 de julho de 2010

CONTRIBUIÇÕES PARA A EDUCAÇÃO A PARTIR DA REFORMA


A Reforma Protestante situa-se na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, o movimento resulta em novas possibilidades, tensões, e contradições da época. Podemos dizer que as grandes mudanças que houveram a partir dessa época foram: a invenção da imprensa, as viagens de comércio e conquista, o processo de modernização, o desenvolvimento científico, às rápidas mudanças sociais, e ainda, o pluralismo cultural e religioso que está tão presente em nosso tempo.


1. As contribuições de Lutero


A educação na Reforma teve um caráter popular, os reformadores se preocupavam com a educação do povo, e para os reformadores a educação tinha um lugar de primazia. Lutero por exemplo valorizava muito a educação, porém interpretava o mundo em que vivia com uma linguagem do seu próprio tempo. Ele vê a ignorância de seu povo e a interpreta como vontade do diabo.

“Ele “o príncipe e deus deste mundo” se agrada com a negligência dos pais com a educação dos filhos, bem como o prejuízo que os mosteiros causam à juventude com uma educação que reforça o cativeiro em que, segundo ele, se encontra a igreja[1]”.

Lutero além de entender que há o dever dos pais em educar os filhos, ele também entendia que esse dever é das autoridades quando diz:

“O progresso da cidade não depende apenas do ajuntamento de grandes tesouros, da construção de grandes muros, de casas bonitas, de muitos canhões e da construção de muitas armas. Inclusive, onde há muitas coisas desse tipo e aparecem alguns loucos, o prejuízo é tanto pior e maior para aquela cidade. Muito antes, o melhor e mais rico progresso para uma cidade é quando ela tem muitas pessoas instruídas, muitos cidadãos sensatos, honestos e bem educados” [2].

Para Lutero havia alguns motivos que deveriam levar as autoridades a construírem escolas. O primeiro era que a construção de escolas seria algo insuportável ao reino do mal, pois Lutero acreditava que a aprendizagem da palavra de Deus desarma as redes e as armadilhas do diabo para prender o povo, pois para ele as armadilhas do diabo para prender o povo na ignorância era o primeiro motivo.

O segundo motivo é chamado de kairós, de tempo bem-aventurado que Lutero reconhece: Poi, dizia que o todo poderoso Deus havia visitado misericordiosamente, instituindo um verdadeiro ano jubileu, Lutero valoriza aquele momento, como um momento novo que não podia ser desperdiçado, pois seria como receber a graça de Deus em vão .
O terceiro motivo para que sejam criadas novas escolas era o próprio mandamento de Deus que exige que os pais ensinem seus filhos, como já dissemos antes, pois para Lutero o principal motivo de vida das pessoas mais velhas seria ensinar os mais novos. Ele acreditava que o maior pecado que se podia cometer era não ensinar as crianças.

"Na verdade é pecado e vergonha, temos que encorajar e ser encorajados a educar nossos filhos e a juventude e buscarmos o melhor para eles. A própria natureza deveria nos convencer disso. Também o exemplo dos pagãos nos deveria encorajar em vários sentidos. Não existe animal irracional que não cuide de seus filhotes e não lhe ensine aquilo que é bom para eles. De que adiantaria se tivéssemos e fossemos todos santos mas deixássemos de fazer aquilo que é a razão principal de nossa existência: a educação da juventude? Em minha opinião, nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo perante Deus, nenhum pecado merece castigo maior do que aquele que cometemos contra as crianças, quando não a educamos[3]”.

Apesar disso Lutero entende que a responsabilidade maior é das autoridades, que não pode se restringir em apenas criar escolas, mas para Lutero a responsabilidade das autoridades era em criar também bibliotecas em todos os lugares, pois de nada adiantaria saber ler se não houvesse livros disponíveis[4].

A época em que Lutero vivia era considerada o inicio do capitalismo mercantilista. Para ele o momento é uma nova oportunidade para investir na educação, era algo primordial, pois garantiria o futuro de uma sociedade, se houvesse escolas, haveriam também médicos, pastores, professores, juristas, e outros profissionais necessários na sociedade.
Portanto, vemos como Lutero acreditava na educação e como a Reforma serviu de grandes benefícios para a educação, mas, além disso, Lutero se preocupou também com a educação cristã da igreja, levando a Bíblia para as mãos do povo em sua época.

A tradução da Bíblia para o alemão foi um grande salto da reforma, pois até então só havia traduções feitas a partir de outras traduções como a da Vulgata, feita em grande parte por Jerônimo no século quarto da nossa era, porém a tradução de Lutero tem duas grandes diferenças: A primeira é que Lutero se baseia nas línguas originais, ou seja, o Novo Testamento em grego, e o Antigo Testamento em hebraico. A segunda diferença é que Lutero se preocupa com povo, ao contrário das traduções anteriores, que eram traduções com um estilo rude e quase incompreensível a cada um, a tradução de Lutero é uma tradução hábil, em conformidade com as leis da gramática e do estilo da língua alemã, ou seja, ele queria dar ao povo uma Bíblia que eles pudessem manuseá-la e que fosse compreensível a todos.


Podemos dizer então que Lutero deu a Bíblia para o povo, apesar de não ser todas as pessoas que podiam ter uma, pois eram caras, os livros eram todos caros na época, mesmo assim a Bíblia na tradução de Lutero foi lida por muitos, devido as tipografias que haviam na época que imprimiam a tradução sem ter a licença do tradutor. Foram 5 mil exemplares do Novo Testamento publicado em setembro de 1522, vendidos em três meses, de modo que já em dezembro publicou uma nova tradução. E o mesmo se deu com a Bíblia inteira cuja as edições se esgotavam.

Todo esse movimento que a reforma proporcionou nessa época, fez com que os Estados alemães dessem mais atenção a educação. O sistema educacional, implantado a partir da segunda metade do século XVI previa a instalação de escolas elementares vernáculas em todas as aldeias, com ensino de leitura, escrita, religião e música sacra.

2. As contribuições de Calvino
Assim como Lutero na Alemanha, Calvino em Genebra também foi um reformador que teve grande preocupação com a educação, se preocupou com a catequização das crianças, que para ele as crianças deveriam entender a Palavra de Deus.

Em Genebra em 1541 Calvino se empenhou no fortalecimento das escolas já existentes, e na construção de uma faculdade com intenção de preparar jovens tanto para o ministério como também para o governo civil. Porém uma das prioridades de Calvino era a catequização de jovens. “Creia-me, meu senhor, ele escrevendo a Somerset, “a Igreja de Deus nunca irá preservar-se sem uma prática de catequização”. “O verdadeiro Cristianismo” deve ser ensinado numa certa forma escrita”. Como resultado dessa sua convicção, Calvino escreve seu primeiro catecismo para Genebra em 1545 [5].

Na faculdade que Calvino sonhava, e lutou para construir, ensinava-se Teologia, Hebraico, Grego, Poesia, Dialética e Retórica, Física e Matemática. E sua abertura, a Academia tinha seiscentos alunos, depois o numero aumentou para novecentos, os alunos vinham de toda Europa para estudar.

Para Calvino o estudo das Humanidades tinha tanto o poder de preparar ministros, como enriquecer a vida de Genebra como uma cidade e, assim promover o governo civil.

3. Escola dominical, uma contribuição para a educação religiosa, pós-Reforma.

A educação passou a ter um grande valor na vida de muitos protestantes, em todo o mundo. Um grande exemplo disso é a vida de um homem que se compadeceu das crianças de sua cidade, crianças que ficavam praticamente abandonadas nas ruas de Gloucester, cidade localizada no sul da Inglaterra. O jornalista episcopal Robert Raikes não conseguiu ficar alheio a esses problemas, pois crianças e jovens perambulavam pelas ruas de Gloucester, viciando-se e roubando. Raikers saiu então a convidar esses jovens, e crianças a se reunir todos os domingos para aprender a palavra de Deus, além do ensino religioso, Raikes ensinava também várias matérias seculares como: Matemática, história, e a língua inglesa. Porém não demorou muito para chegar os problemas, a oposição o acusaram de estar quebrando o domingo (O Dia do Senhor), porém Raikes não se intimidou, mas continuou seu trabalho, que havia começado em 1780, e três anos mais tarde, Raikes começou a divulgar os resultados de seu trabalho. No dia 3 de novembro de 1783, Raikes publica em seu jornal, aquilo que Deus havia feito na vida daqueles jovens de Gloscester através de seu trabalho. E até hoje, esse dia é reconhecido como o dia da fundação da escola dominical.

4. O Presbiterianismo, e suas contribuições na educação.

No Brasil a educação sempre fez parte dos projetos presbiterianos, no inicio havia um lema, “ao lado de cada igreja uma escola”. De acordo com os historiadores, os presbiterianos foram os que mais investiram em escolas, as chamadas: “escolas paroquiais”, acredita-se que é fato ocorria porque eles sempre ocupavam as regiões onde nenhum tipo de educação havia chego. Muitas vezes o próprio pastor com sua família também faziam o papel de professores. Essas escolas paroquiais nunca foram questionadas, porque estavam de acordo com a visão missionária, razão porque o protestantismo não cresce em grupos de escolaridade baixa, pelo menos o conhecimento bíblico era essencial[6].

A educação era tão valorizada entre os presbiterianos que o pastor, quando ia batizar uma criança perguntava aos pais: “Vocês prometem dar-lhe educação quando puderem, e fazer com que aprenda a ler as Escrituras Sagradas?” A resposta era: “prometemos”[7]. (Manual do Culto da IPI do Brasil)

Os presbiterianos prestaram um grande serviço para Reino de Deus, e para o Brasil, pois a rede pública naquela época não tinha condições de dar auxilio escolar nos lugares mais afastados. Dessa forma nós podemos perceber o quanto à igreja presbiteriana colaborou para a educação em nosso país. Até hoje temos escolas e faculdades presbiterianas como um dos resultados do trabalho prestados pelos primeiros presbiterianos que vieram para o Brasil.

CONCLUSÃO

Podemos perceber que as grandes contribuições que Reforma proporcionou para o desenvolvimento da educação, vimos o valor da educação na vida de homens como Lutero, Calvino, Raikes, e outros, que deram a suas vidas em prol do ensino na igreja e na sociedade.
Através das vidas desses homens somos desfiados a se movimentar diante de tão grande descaso com a educação que está tão presente em nossos dias, não só nas igrejas, mais também nas escolas públicas em todo o país. O que podemos fazer como igreja?

Essa reflexão será de extrema importância para que possamos, assim como esses homens que no passado que lutaram pela educação, possamos também lutar e dar nossa contribuição para que a educação em nosso país possa ser melhor.

[1] Danilo R. STRECK, Estudos da Religião, p. 34.
[2] Martim LUTERO, Lutero para hoje (Educação e Reforma) p. 19.
[3] Martim LUTERO, Lutero para hoje (Educação e Reforma) p. 16.
[4] Danilo R. STRECK, Estudos da Religião, p. 35.
[5] Ronald WALLACE, Caloino, Genebra e a Reforma, p. 87.
[6] Estandarte, Comemoração do Centenário da I.P.I do Brasil, p. 26-27.
[7] Estandarte, Comemoração do Centenário da I.P.I do Brasil, p. 26-27.

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